
Dizem que à medida que vamos caminhando na idade, as memórias mais antigas vão ficando cada vez mais claras, em contrapartida com o esquecimento imediato do dia de ontem.
A propósito do tema proposto pela Fábrica para este mês, lembrei-me de uma longa viagem que fiz há séculos. Longa porque naqueles tempos, estaríamos nos finais dos 70, ir do Alentejo ao Algarve era uma aventura que demorava o seu tempo. Não havia auto-estradas, ou vias rápidas, e as estradas existentes a muito custo podiam ter esse nome. A Serra do Caldeirão era passagem obrigatória, curvas e mais curvas, seguidas de curvas eram a explicação para a cor esverdeada dos semblantes. Os estômagos mais frágeis, quase sempre pediam misericórdia e mesmo os mais fortes coravam de enjoo.
Era verão. Talvez Agosto, isso não sei dizer. Os meus pais, os meus tios, e outro casal amigo, decidiram ir fazer um fim de semana prolongado para o Algarve. Destino: Monte-Gordo, Tipo: campismo selvagem.
Selvagem, porque não havia propriamente um parque de campismo, e selvagem porque nunca ninguém daquelas três famílias tinha sequer olhado para uma tenda antes.
Lá seguimos viagem, três carros carregados de tralhas, comidas, fogões, colchões e etcs, por aí fora. Avistámos Monte Gordo, umas quatro horas depois. Os estômagos deviam estar às voltas, os miúdos fartos da viagem, os adultos fartos dos miúdos (sim porque estas coisas não mudam muito). Toca a tirar tudo pra fora do carro, e aos mais aventureiros cabia a tarefa de montar a tenda. A tenda, que era mais uma barraca, era um despojo de um qualquer quartel militar, um pano enorme, verde seco, surrado, esburacado, uma dúzia de estacas de ferro, e claro corda com fartura. Outras quatro horas depois, os filhos mais velhos rebolavam-se no chão às gargalhadas perante as tentativas frustradas de manter de pé a "casa". Nós os mais novos, andávamos mais entretidos a apanhar camaleões.
O casal amigo, com um filho único, tinham levado uma sobrinha com eles, pra fazer companhia ao primo, e depois de toda aquela azafama, estavam ainda em estado de choque com a viagem, os olhos perdidos, a tez pálida, e um cansaço enorme, que a bem dizer não conseguiram recuperar nos três dias que por lá andaram. O pobre do homem, nunca tinha conduzido fora de Reguengos, e, descobrimos mais tarde, dentro do carro deles, foi desde a partida estabelecido um estado de alerta constante. Ele só olhava em frente, a mulher só olhava para o lado direito, e no banco traseiro do automóvel, o miúdo (que mais parecia um leitão de engorda, e a quem "carinhosamente" chamávamos Bufinha), fazia a viagem toda de joelhos virado pra trás (naquele tempo não havia cá cintos de segurança, nem cadeirinhas), enquanto a prima, uma adolescente muito bem comportada, relatava tudo o que acontecia do lado esquerdo. Não admira que estivessem extenuados à chegada...
Foram três dias de divertimento, muito ar puro, muita praia, manhãs inteiras a enterrar os pés na areia da maré baixa para apanhar conquilhas. No Domingo depois de almoço, toca a desmontar o acampamento e enfiar tudo nos carros, para o regresso. Os nossos companheiros estavam já amarelos com a antevisão de mais um bocado de inferno até chegar ao doce lar.
Lá partimos, de regresso a casa, sujos, cheios de sal e pó, os miúdos cheiinhos de sorrisos, os adolescentes cheios de estórias pra contar amanhã no jardim, um fim de semana no Algarve não era pra toda a gente, os adultos já a pensarem na semana de trabalho que tinham pela frente.
Nas minhas mãos, uma caixa de papelão, com uma tampa toda furada com a ponta da navalha de bolso do meu pai. Lá dentro o Hércules, um camaleão.
Pic in DeviantartPS: O Hercules, morreu dias depois. O meu vizinho matou-o à pazada, depois de ouvir a mulher e a sogra aos gritos de "mata o bicho! mata o bicho!"