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quinta-feira, 19 de novembro de 2009

A gruta dos Morcegos


Não me considero uma pessoa demasiado conservadora. Tenho dias é certo. E também dou a mão à palmatória, provavelmente, já fui um bocadinho mais open minded. Quando eu era uma miúda de 15 anos, já nessa altura, no século passado, em plenos e drásticos anos 80, o facto de usar uma camisola ou um par de calças pretas era um passo para o sucesso limpinho e sem espinhas. A malta ficava com aquela áurea de rebelde. E então se se tivesse peito para conjugar a fatiota com um penteado radical, oh pá isso era o máximo!Claro está, que jamais em tempo algum, a minha mãe, que coitada era uma santa, e confesso não me contrariava em praticamente nada, jamais dizia eu, poderia sair à rua com a receita completa, ou seja camisola+calças pretas. "Tira daí o sentido! Morreu-te alguém? Um dia que tenhas que fazer luto, se calhar não fazes!" Tinha razão. As mães têm muitas vezes razão.

Agora, dobrado que está o século, quebradas que estão todas as barreiras (ou quase), eis que tenho dentro da minha própria casa uma "corja" de morcegos! Tá certo, não posso negar, o preto tem um ar cool, um quê de arrogância, um quê de "eu sou o maior", compreendo que, especialmente os mais velhos estejam a escalar as escarpas da auto-afirmação, nos dias de hoje tão física, tão visual, tão etiquetada, mas porra, esta gente começa a parecer-se com um filme dos irmãos Lumiere!

Os adolescentes adoptam com a maior das facilidades todos os rótulos que lhes mandem pra cima, desde os mais usados e gastos, tipo gótico, metal, punk, até aos mais modernos ( que são basicamente a mesma coisa, mas com outro nome qualquer) tipo Emo, Trash Metal, Neo-Punk, Folk Metal, lolita e outros tantos que me passam a 100 à hora e saem ainda mais depressa.

Isto tudo para dizer que tenho os roupeiros atulhados de lutos vãos, casacos, meias, camisolas, calças, tud0 TUDO!

O branco também é admitido! Os padrões, muito originais, xadrez preto e branco, pintinhas pretas, bolinhas brancas, riscas, o que for, sempre nesta dualidade, que pode até ser muito in, pode até ser um manifesto de personalidade, mas é monótono...chato...aborrecido...

Ah, mas há mais. Os acessórios. Pois, os acessórios. As pulseiras de picos, as correntes, o lápis kajal....preto, o verniz de unhas....preto, os colares com caveiras, os lenços com caveiras, as malas com caveiras, muiiiiitos Jacks Skellingtons, e assim...

" Olha, L. tás a ver, este casaco é o máximo!....", ".....mãe...? (o tom é de incredulidade e desprezo a um tempo só) isso é azul!", ou então "Z., adoro este polo, vou levar pra ti. :D", "nem penses!!! Oh mãe isso é totalmente beto (coisa que eles não podem ser...acho eu...)!(outra vez o olhar.....)

"Linda, anda cá ver! olha tão giro, E. ias parecer uma princesa, vês! cor-se-rosa.."....."mãe....eu detesto cor-de-rosa....quero aquela saia preta ali!" (o dedo em riste. Sem opção de resposta, pego na saia preta e vou pagar.)

É mais ou menos assim, de cada vez que tento comprar roupa com algum dos três.

Já me esquecia. Os sapatos. Quer dizer, o calçado, que sapatos propriamente ditos, só mesmo os da farda, mas já lá chego. Botas de biqueira de aço e ténis pretos estão sempre na ordem do dia.

Claro que depois há toda uma iconografia ao redor desta escuridão, que tem que ser venerada. Músicos que já morreram estão em primeiríssimo lugar, claro está que se cometeram suicídio estão muito acima na escala. Pronto, coisas importantes.

É um espectáculo interessante de se ver, quando eles saem daqui de casa em bandos, com os amigos, uma "morcegada" completa, todos de preto, as correntes, os picos, os "gaijos" mortos nas t-shirts, uma alegria...

O mais giro de tudo isto, especialmente para quem assiste ao making of diário destas personagens de "banda desenhada", é o fim de semana. Os meninos, bem comportados, enfiam a farda dos escuteiros (ahhh poizé), calçam os mocassins, e lá vão a caminho da missa, ou das actividades escutistas habituais. Ele, o rapaz, inclusive, veste a alva para acolitar aos Domingos.

Eles próprios também se divertem com a distância de posições. Como eles costumam dizer à laia de brincadeira: " Iá, bora lá partir a igreja, e os crucifixos e tudo .... mas espera lá, primeiro temos que ir à missa."

Nada a dizer, são felizes, entre o branco e o preto, entre o ser e o querer ser.


Pic by Meldevespas

 

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