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sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Por quem dobram os sinos?



"Ê fui cantonêro! Ah pois fui! Muntos anos! Corri seca e meca...o mê patrão era o Chefe da Estrada, conhece-o? Boa pessoa...tava sempre tudo bem pra ele, sempre...esta aqui? É da Granja. Faz versos!"

"Sou da Granja sim Senhora, sabe?, Todos os anos, no Entrudo, vinha aqui pra Mourão, morava cá mê tio, sabe? ele dizia a minha tia: Maria, tens que fazer arroz doce, que vem aí a nossa menina, que era eu percebe?, eu era a mais piquinina, era tudo pra mim, tanto q'eu gosto de arroz doce! Até me lembia! Em casa de minha mãe, não se fazia arroz doce...pois não...tinha-lhe morrido uma filha já grande...em Lisboa...sabe? até me puseram a menina dos versos! Escute:

Lindos brincos tem a moça, nas orelhas a abanar, quem me dera dar um bêjo, onde os brincos vão beijar"

"Fui toreiro! Agarrante! Olhe faz amanhã, dia da Candelária 37 anos quê peguei um mesmo à saída dos curros, na tourada da festa! Levei munta pancada, oh se levei, mas ouça, nunca me desmaginei disso eheheh ehh touro, eh touro!"

"Escute, menina, ê sou da Granja, sabe, no Entrudo vinha aqui pra casa de mê tio, faziam-me sempre arroz doce, Maria, vem ai a nossa menina! Ê até me lembia! Na minha casa não se fazia...."

E lá continua...só muda o sujeito, umas vezes morreu uma filha já grande em Lisboa, outras vezes uma irmã, outras vezes foi a mãe que morreu afogada na ribeira.

Tem sido um banho de realidade, meus amigos, mas não é assim um duche rápido que se toma ao fim da tarde pra esquecer o dia de trabalho e apagar o suor do corpo cansado, nada disso. É mesmo um banho demorado que nos cansa a alma nos acorda todos os sentidos, um banho frio como pedra.

Tenho muitas vezes nos últimos tempos encarado isto como um olhar do futuro.

Por motivos familiares, tenho passado muitas horas num lar para idosos, depois de mais de um ano de luta, de cerrar os dentes e não querer ver que o inevitável estava mesmo ali à minha frente, fui obrigada a ceder à força de muitas circunstâncias. Talvez não fique muito claro, neste texto, mas a dor, o incomodo, a culpa...são perturbadores, e quem sabe volte ao assunto quando a ferida estiver um pouco mais sarada. Tudo sara, esta não vai ser diferente.

As visitas diárias a um lugar destes, por muito bom que ele seja, são qualquer coisa para a qual ninguém pode estar preparado de ante-mão.

A visão do futuro, crua, como uma batida de frente.

O esquecimento, a decrepitude, os membros tolhidos pelas escleroses, artroses, avcs, Alzeihmers e afins; a vida toda impressa em dor e saudade nos olhos cansados, as bocas abertas num espanto mudo, a coluna dobrada, bengalas, andarilhos, pés que se arrastam numa sinfonia de pó-de-talco, e fraldas e urina e desinfectantes...

Porque somos jovens, ainda, tudo isto é exactamente aquilo que não queremos ver, que fingimos não existir sequer, porque estamos longe, tão longe que é impossível aceitar aquilo como uma realidade que nos espera. Nada nos trai os sonhos, a juventude ou a vaidade.

Todos os dias as mesmas histórias, repetidas no mesmo tom de quem tem ainda coisas para dizer, apenas nem sempre tem quem queira ouvir. Todas as tardes as mesmas apresentações de ontem, quem são, como se chamam, de onde vêm. A vida que se esvai, e ainda assim teima em renascer a cada palavra dita.

Já sei os versos de cor e salteado, já conheço o patrão, as sortes das faenas dos touros, os filhos, os tios, o arroz doce...

Estas pessoas entraram na minha vida, quase todos os dias eu e a minha irmã, falamos deles, rimo-nos com as repetições. Claro que nos rimos, seria hipócrita dizer que se resiste! Claro que não! A frase "até me lembia!" entrou definitivamente no vocabulário familiar, e acompanhamos com efervescência o namorico entre um casalinho de octogenários, que partilham maçãs e laranjas pilhadas à socapa da mesa do almoço, e que provavelmente todos os dias se apaixonam um pelo outro...à primeira vista.


"Já vi chover e estar sol, já vi luar e estar escuro, vi tirar um bem-querer, onde estava tão seguro"



 

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