quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Anda cá que eu dou-te o trauma...




Nos tempos que correm, é corrente passe a redundância, falar de traumas, recalcamentos, depressões e afins. Estas palavras, podemos dizer, "abancaram" nas nossas conversas mais banais, " não digas isso à menina, ainda lhe arranjas um trauma prá vida toda!", ou "por causa daquele professor, ainda acabo cheio de recalcamentos", ou " esta vida é tão stressante que mais dia menos dia estou com uma depressão em cima da espinha..." e podia continuar com os exemplos até ao sol posto!

Ora não me lembro de ouvir a minha mãe usar nenhum destes termos, e se ela trabalhava de sol a sol, com três crianças às costas e um marido, apaixonado é certo, mas como era da praxe, totalmente incapaz de levantar o rabo da cadeira, sequer para ir buscar um copo de água.

Quando eu andava na primária, tive um professor daqueles à moda antiga, MESMO, a malta ia em fila indiana mostrar os ditados, uns tremiam, outros choramingavam, outros ainda arrastavam-se passo a passo numa espécie de transe, enfeitiçados pela régua de madeira de 50 cm que estava pousada ao lado da mão do professor. Aquilo não era trauma, não senhor! Aquilo era medo puro! Mais tarde veio um professor mais moderno, que substituiu a régua pelo pau do xilofone (o pau há-de ter um nome, mas eu não sei, e também estou pouco interessada). Facto é, que o medo continuava, e a dor era ainda pior...

Crescemos todos, uns fizeram mais pela vida, outros menos, uns tiveram mais sorte (sim, também é preciso ter um bocadinho de sorte), outros nem por isso; que me lembre nenhum seguiu a carreira do ensino, mas fora parte esse facto, somos pessoas perfeitamente vulgares, que encaixam salvo algumas arestas, nos parâmetros estabelecidos.

Depois da primária, seguiram-se outros professores, muitos outros, uns mais liberais, outros completamente reaccionários, alguns modernaços e porreiros, outros aborrecidos e cinzentos (se a palavra trauma tiver alguma serventia é aqui, os chatos podem ser traumatizantes, confesso...).

Existe uma dificuldade crescente em lidar com pessoas de uma maneira geral. Então com crianças e/ou adolescentes sente-se quase um medo latente. Chegou-se ao ponto de levar literalmente os miúdos ao colo, no que concerne aos estudos. Os chumbos, lá está, são traumatizantes e deixam marcas inultrapassáveis nas crianças...pois sim. É preferível, parece que é até desejável, que cheguem ao 12º ano sem saber peva de português! Serão muito melhores pessoas, estas nossas crianças, que não podem sofrer o derrote de um ralhete, coitados, não vão ficar irremediavelmente desajustados...

Trauma, recalcamento, stress, esgotamento, depressão? É passar fome, meus amigos, é a guerra, é a falta de respeito dos nosso governantes por nós, é a displicência com que tratamos o ambiente! Não é certamente um tabefe bem aplicado no momento certo, não é certamente um dia com horas a menos para as catadupas de afazeres, não é concerteza o colega burro aqui ao lado que se ri de tudo e de nada.

Não querendo ser redutora num assunto tão sério, cá em casa, trauma é abrir o armário da cozinha, e o pacote das bolachas de chocolate estar vazio, um stress do caraças é o Meo não ter gravado o Dragon Ball Z até ao fim, uma depressão de ir às lágrimas é descobrir o que argumentar daqui a oito dias quando as pautas das notas vierem à luz...

Por tudo isto, e mais algumas outras coisinhas de nada é que eu, se me permitem, não abdico do clássico, "levas uma latada que te viro a cara pró cu", ou ainda o intemporal "dou-te um murro no meio dos olhos que nunca mais precisas tirar os óculos pra dormir!"

Tenho dito

Pic by Lenore

9 comentários:

Brown Eyes disse...

ahahhahahah
Mel tu és demais. Deixaste-me de a rir às gargalhadas e agora como comento? Estou de acordo, levei algumas reguadas e acredita só me fizeram bem e acreditas que só gostava dos professores mais duros? Pois, havia silêncio nas aulas e sabiam ensinar.Os moles não percebiam nada daquilo, daí serem moles. Trauma é vermos os nossos filhos seguir "maus caminhos", trauma é ver a educação como está, trauma é ver o respeito que eles têm pelos mais velhos. Nós não somos traumatizados, somos trabalhadores e lutamos pelo que queremos. Eles não, só querem a vida fácil e claro as notas ressentem-se. Houve um caso muito interessante em Espanha, quando tiveres tempo lê no meu blog
http://thelookbrown.blogspot.com/2009/03/indignada.html
Ao que chegaremos. Ninguém pode bater neles mas eles podem bater,maltratar, roubar,etc, ninguém pode fazer nada: são menores.
Enfim.... Adorei, claro, como sempre. Beijinhos

Gingerbread Girl disse...

"levas uma latada que te viro a cara pró cu"
Opá, o que me ri com isto! =D Tenho de ver se uso esta frase um dia destes... só para ver reacções. +++

Os traumas, hoje em dia, são overrated... afinal, fazem parte das nossas vivências. Sem eles, não seríamos como somos. Seriamos mais...hm... tolinhos contentes. =p

*

meldevespas disse...

Mary B.: Isto dá vontade de rir se lhe imprimirmos um tom jocoso e tal, mas a verdade é que é caso pra chorar. Estive a ler o teu post, e é apenas mais um dos casos que ouvimos todos os dias e que como dizes nos deixam indignadas, de boca aberta e de mãos atadas ainda por cima. Ao que isto chegou!!! Estamos a criar verdadeiras flores de estufa, sem cheiro nem graça e ainda por cima, desculpa o termo, sem conhecerem o dono, ahhh poizé, dito de grosso modo até parece mal, mas estes miúdos sem rei nem roque, não fazem a minima ideia do que é a familia, o respeito, etc. A minha filha mais velha, só para veres como é, tem uma professosra, atenção que estão no 11º ano, que tem medo de um dos alunos! Ou seja, não faz queixa dele, não reporta nada do que se passa na sala de aula e uma ou duas vezes quwe o tentou pôr fora da sala ele disse que não saía....e não saíu...
Ginger Maria: Embasbacados...ficam embasbacados com a expressão, a Leonor por exemplo farta-se de rir e depois lá se vai o clima de pré-trauma pró galheto!
Tens toda a razão, estamos a criar espelhos de caracter!!! oh oh! Eu diria mais, uns tolinhos perigosos!

Mulher a 1000/h disse...

Bem... eu só vos digo isto... o pediatra da minha filha, quando lhe comecei a dar papas e sopa disse-me: "Nunca obrigue a menina a comer!" e eu... achei sempre muita piada a essa recomendação, que fiz questão de seguir à risca, até ontem... 3º dia seguido em que o pisco se recusava a comer a sopa! PASSEI-ME! Agarrei-lhe nas mãos e enfiei-lhe três colheres de seguideira... Depois, parei! Ela, que viu que não ia ganhar a batalha... olhou para mim e disse: Nham, Nham... e abriu a boca! Comeu o prato cheio! Uma coisa eu sinto, que ser pai/professor/educador nos dias de hoje é ser-se totalmente banana e desprovido de autoridade! Qual traumas, qual quê! Uma palmada na hora certa nunca fez mal a ninguém! Tudo com peso e medida... é óbvio... mas às vezes acho que os miúdos precisam mesmo de saber quem manda!
P.Szito- tb levei a minha cota de puxões de orelha e uma reguada que me serviu de exemplo: Nunca mais copiei na vida!

Mel, belo texto este teu! Parabéns! Bjs

Lucrécia disse...

Mas que boa surpresa encontrar este blog!!!

Identifiquei-me ,sem reservas,com o escrito.

E vou voltar.Prometo.

weee disse...

Até eu...ATÉ EU... levei com essas benditas réguas e, confesso, só me fez bem! *Blush

É por essas e por outras que a minha mãe se reformou do ensino. Já não há respeito e ai de quem lhes tocar num fio de cabelo!!! Eles sim, eles podem furar os pneus, saltar nas mesas, roubar os professores que... se eles dizem que não o fizeram, é porque não fizeram mesmo.

Enfim...

meldevespas disse...

Silvia: Poizé os pediatras tem dessas coisas, a dos meus filhos dizia sempre "oh Carminho n conte essas estórias de bruxas à menina que ela fica traumatizada!"....pois, e eu respondia-lhe " Oh Dra, mas sabe lá o jeito que as bruxas dão pra comer a sopa!", e não não ficaram traumatizados...excepto talvez o rapaz, a quem a Bruxa da Branca de Neve ainda hoje (faz hoje 14 anos o meu menino) assusta...
Beijinhos
Lucrécia: Obrigada pela visita, tentei retribuir, mas o teu perfil é privado :\
Volta sempre
Weee: No teu caso, só se perderam as que cairam no chão....entendes-me? acho que levaste pouco...
Em relação à tua mãe, a opção dela é cada vez mais a opção de muitos professores, calculo que seja um desgaste enorme conviver com esta nova realidade, mas tb temos que ver o lado oposto, existem alguns professores que se "entregam" a isto e simplesmente n fazem nada. Só pra veres como é, a Geninha tem um professor de música nas extracurriculares, que só lá tem 10 meninos, atenção, que são meninos de 7 anos, e apresentou uma queixa à professora da turma porque não consegue dominar os meninos.... pode?
Enfim...dizes bem
Beijos grandes

Su disse...

O post já é antigo, mas quando descubro um blog gosto de ler mais do que um post para perceber o conteúdo.
Depois de ler este, não podia deixar de comentar. Não só disseste tudo aquilo que penso como o fizeste de uma forma leve mas séria. Gostei mesmo muito.
Ainda não sou mãe, por vezes penso que ainda sou uma miúda, e sempre que penso em ter filhos assusta-me se serei capaz de os educar devidamente e de lhes incutir os mesmos principios e valores que me foram incutidos a mim.
Confesso que ter contacto (mesmo que desta forma) com pais que são pessoas com quem me posso identificar numa ou outra coisa e que demonstram uma boa capacidade de educar é para mim um alivio. Sinto que posso aprender e que, afinal, não existem só pais completamente inconscientes e demasiado egoístas para se preocuparem com aquilo que estão a criar.

Muitos Parabéns. Espero que continues a partilhar histórias dos miúdos :)

meldevespas disse...

Su: Nem tinha dado por este comentário. calhou mesmo.
Com toda a certeza vais ser uma boa mãe, nós já nascenos "talhadas" para o assunto, e depois é só tomar o jeito. Pelo que vi lá do te espaço, és uma miúda (desculpa tratar-te assim, mas és, e isso é muito bom) inteligente e sensivel. Sabes que esta coisa de ser pais, é a única que não nos ensinam nas carteiras das escolas, somos total e completamente auto-didactas e claro que os erros são muitos, são grandes, mas também são muitas vezes empurrões no nosso crescimento como pessoas. Obrigada pelas tuas palavras, gostei muito do teu comentário.
Beijinhos

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